Written on 15:31:00 by Maurício Angelo

Nota: 7
“Maximum Rock N’ Soul, Blue Is The Teacher, Punk Is The Preacher”. Uma banda que tem esse tipo de apelo e se auto-proclama com estas palavras chave, no mínimo merece atenção. E o BellRays, egresso da Califórnia, sem dúvida faz por onde. Sempre comparados a uma fusão de Aretha Franklin com Stooges e MC5, destacando-se principalmente pelo vocal monstruoso de Lisa Kekaula, sua música está entre as mais empolgantes da atualidade. Com 5 álbuns no currículo, em especial o último, “Have A Little Faith”, que teve melhor divulgação, sendo, também, uma obra poderosa que transbordava tesão e força rítmica (uma constante na história deles), a banda tem um conjunto poderoso na cozinha de Bob Vennum e Craig Waters.
Mas parece que a saída do guitarrista Tony Fate, fazendo com que Bob voltasse a tocar guitarra – alternando entre ela e o baixo – realmente fez falta ao grupo. Os riffs estão menos inspirados e o “high voltage rock n’ roll” já não é tão “high” assim. Após a paulada que era o último trabalho, “Hard Sweet And Sticky” soa como se o grupo tivesse levado um belo pé na bunda no auge da paixão, passando das noites de amor intenso à fossa inegável.
A abertura com “The Same Way”, por exemplo, é bem morna. E “Fire Next Time” é o BellRays brincando de Massive Attack. Algo que, pasmem, ocorre muito. Principalmente em “Wedding Bells”, que poderia passar perfeitamente como uma faixa perdida dos ingleses. Uma adição interessante de trip hop, embora inusitada e ainda precisando de alguns ajustes. “Blue Against The Sky”, soul até o tutano, é o momento de Lisa brilhar. “Footprints In The Water” – regravada do primeiro CD - começa com um baixo perigoso e crescente para desembocar num quase brit-pop “feliz” de inverno – no máximo que o vocal de Lisa permite isso, soando mais como uma celebração Pantera Negra da década de 70.
Mas as melhores são mesmo onde a veia punk é prioridade: a explosiva “Psychotic Hate Man”, “One Big Party”, “That’s No The Way It Should Be” – animais ferozes domesticados - e “Infection”, no esquema power-down-up com um solo encharcado de uma verve negra formidável. Além de “Coming Down” e “Pinball City” (outra releitura deles próprios), pra fechar, explodindo naquele punch visceral de quem acorda no meio da festa após uma ressaca precoce violenta e volta a curtir como se nada tivesse acontecido.
No fim, “Hard Sweet And Sticky” é menos urgente e mais calmo que o costumeiro, dum grupo, parece, ainda tonto com o golpe, mas sem deixar soar o gongo. Uma introspecção inflamável suficiente para deixá-los como um dos nomes mais bacanas da cena.
MySpace: www.myspace.com/thebellrays
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Written on 10:21:00 by Maurício Angelo

Álbum: Scarlett Johansson – Anywhere I Lay My Head
Nota: 8
“Anywhere I Lay My Head”, provavelmente, é um dos álbuns/projeto mais curiosos do ano: cultuada atriz de Hollywood resolve fazer sua primeira incursão efetiva no mundo musical através de releituras de um dos mais herméticos compositores do século XX.
Scarlett Johansson, parece-me, quer mesmo tornar-se um dos ícones culturais deste início de milênio. Habitué nos filmes de Woody Allen (já são três longas com o diretor), trabalhou também com outros nomes tipicamente “cult’s”, como Sofia Coppola e Brian DePalma, além de ser considerada uma das mulheres mais sexy do mundo. Carreira já consolidada e promissora, portanto. Na música, havia aparecido em vídeos de Bob Dylan e subido ao palco para cantar “Just Like Honey” com o Jesus & Mary Chain no último festival Coachella.
Mas a surpresa maior está no desafio que ela mesma se impôs. Além de se atrever à cantora, a escolha de Tom Waits para interpretar revela uma coragem admirável. Compositor dos mais criativos, ousados e difíceis da música estadunidense, Waits construiu uma carreira que trafega com competência pelo rock, blues, jazz, folk, country, punk e o que mais ele inventasse. Possuindo uma voz única e letrista que beira o poético, o non-sense, a quebra de convenções, a celebração dos cantos mais escuros da personalidade humana. Trovador, cronista, poeta, filósofo, artista. Dono de uma discografia indefinível e indescritível e com uma extensa participação no cinema – coincidência nada gratuita.
Ou seja, Scarlett fez uma das opções mais difíceis e desafiadoras que poderia, provando que não se trata de oportunismo puro e simples. Para tanto, recrutou o produtor David Sitek, também guitarrista do TV On The Radio, uma das bandas mais relevantes da cena – e uma das mais cerebrais também. Fica evidente o dedo de Sitek no trabalho, construindo bases e sobreposições efetivas para disfarçar os momentos em que a voz de Johansson não é suficiente, bem como agregando valor em programações bem criadas e releituras cuidadosas dos climas originais. Cada música de Waits é uma estória com vida e identidade própria, tanto no aspecto sonoro quanto lírico, e a dobradinha David-Scarlett soube recriar isso muito bem.
A voz de contralto da moça é respaldada pelos tons peculiares à que teve de se reportar. “Fawn” é uma introdução instrumental colocada meio que de propósito, de sadismo, para aumentar a expectativa e a curiosidade, preparando o terreno, gradativamente, e de forma tensa e fúnebre, para o que virá a seguir. E em “Town With No Cheer” temos a oportunidade de “ver” uma atriz se transformar em cantora bem diante de nossos ouvidos. Daí em diante ganhamos uma companhia agradável, sombria, cativante e envolvente, ancorada pelo polivalente (e esperto, num sentido bem próprio) trabalho de Sitek.
Sobressai-se a maravilhosa “Falling Down”, praticamente feita para embalar noites introspectivas e estranhas, onde o escuro passa a tomar forma e uma sensação de vazio e abandono ganha eco na mente do ouvinte. Assim como “Fannin’ Street” (com os backings monstruosos de David Bowie) é marcha para o fim do mundo…em contraposição à “canção de ninar” que é “I Wish I Was In New Orleans”. Ninar, aliás, é uma boa ligação para a releitura do hit “I Don’t Want To Grow Up”, deliciosa na voz de Scarlett. Experimente não ficar arrepiado na parte sussurrada ou não se deixar envolver pelas programações pop propositadamente datadas de fundo. “Song For Jo”, a única autoral, também não faz feio, a exemplo da faixa-título, sem esquecer da fantasmagórica “Green Grass”.
“Anywhere I Lay My Head” impõe-se como uma obra coesa e corajosa, sendo um dos melhores álbuns de canções do ano. Não ficando apenas no quesito “curiosidade” levantado pela sua concepção e por quem foi feito, mas fazendo valer, e muito, a experiência. Vários motivos para contar com a benção de Waits.
Artigo recomendado:
A Metafísica de Botequim de Tom Waits
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